O Banco Central (BC) alerta para uma alta recorde na inadimplência entre famílias brasileiras, impactando especialmente bancos digitais e fintechs. Essas instituições enfrentam maior vulnerabilidade devido à concentração em crédito sem garantia e ao atendimento a públicos com acesso financeiro recente. Essa realidade deve influenciar diretamente o acesso ao crédito e a gestão financeira desses consumidores, que já enfrentam endividamento elevado.
Desde o início do ano, os atrasos nos pagamentos mantêm-se em níveis historicamente altos, especialmente no crédito livre, que inclui financiamento de veículos, crédito pessoal não consignado e consignado para trabalhadores do setor privado. O BC acredita que as renegociações de dívidas em curso podem aliviar o cenário nos próximos meses, mas o impacto atual já exige atenção do setor. Neste contexto, suas bancos digitais podem estar mais controladas.
Inadimplência dispara em bancos digitais e fintechs: dados e causas principais
A inadimplência nos bancos digitais e fintechs cresceu 360% junto ao aumento do saldo de crédito ativo, segundo dados da Equifax BoaVista. Entre 2021 e 2025, a taxa de atraso em cartões saltou de 7,71% para 20,31%, enquanto no empréstimo pessoal subiu de 6,55% para 13,93%. O BTG Pactual também mostra que o percentual de saldos vencidos em cartões digitais dobrou, passando de 5,77% para 11,16%, contrastando com a menor elevação nos bancos tradicionais.
Esse aumento decorre da composição das carteiras dessas instituições, focadas em crédito sem garantia, e do perfil dos clientes, que incluem grande parte de pessoas que ingressaram recentemente no sistema financeiro. Assim, a exposição ao risco é maior, elevando a inadimplência e pressionando a sustentabilidade desses modelos.
Modelos de crédito e riscos diferenciados dentro das fintechs
Nem todas as operações em fintechs apresentam o mesmo nível de risco. Existem segmentos mais protegidos, como antecipação de recebíveis com agenda registrada, supply chain finance com duplicata escritural e contratos com gravame ou cessão fiduciária. Essas operações possuem lastro real, o que reduz a exposição a inadimplência, diferentemente do crédito sem garantia típico de cartões.
Especialistas destacam que fintechs com maior concentração em carteiras de risco elevado sentem mais os impactos da inadimplência crescente. Manter a oferta de crédito de forma responsável e adaptada ao ambiente econômico é o maior desafio para essas instituições.
Reação do mercado: ajuste de limites e reprecificação do crédito
Bancos digitais e fintechs já estão reduzindo limites e reavaliando o risco dos clientes. Dados do Sistema de Informações de Crédito (SCR) indicam que essas medidas começaram a ser implementadas em abril de 2026. Algumas instituições reforçaram controles e alertas dentro dos aplicativos para evitar o acúmulo de dívidas.
Essa abordagem visa evitar a formação de novas dívidas difíceis de serem pagas, mas pode restringir o acesso ao crédito para quem recentemente entrou no sistema financeiro. O cenário exige equilíbrio entre controle de risco e manutenção da inclusão financeira.
Consequências para consumidores e o futuro da inclusão financeira
Os bancos digitais atendem atualmente cerca de 61 milhões de brasileiros, com exclusividade para quase metade dos clientes de cartão e mais da metade dos de empréstimo pessoal. Restringir crédito de forma ampla pode empurrar esses consumidores para o crédito rotativo, que cobra juros elevados, ou até mesmo para a exclusão do sistema financeiro formal.
Especialistas alertam para a necessidade de revisão seletiva dos critérios de concessão de crédito, evitando limitações indiscriminadas que possam frear investimentos, consumo e geração de renda, prejudicando o desenvolvimento econômico e social.
Mudança de postura necessária para o setor de crédito enfrentar o desafio
O setor financeiro precisa priorizar a qualidade das carteiras em vez da expansão acelerada. Uma mudança estratégica já ocorre com a migração para crédito garantido e de curto prazo, como consignado privado e antecipação de recebíveis, além do fortalecimento do funding por meio de instrumentos como FIDCs.
A adoção da Resolução CMN 4.966, que exige maior precificação do risco e provisões contábeis adequadas, reforça a necessidade de práticas prudenciais. Fintechs que operam com parceiros regulados devem internalizar essas novas regras para evitar problemas futuros.
O desafio à frente: repensar o crédito para garantir sustentabilidade e inclusão
O ambiente de juros elevados e inadimplência crescente exige que bancos digitais e fintechs foquem em eficiência, sustentabilidade e segurança na oferta de crédito. O uso avançado de inteligência artificial e monitoramento das carteiras auxilia na gestão de risco, mas não elimina os efeitos da deterioração econômica.
Especialistas defendem que fortalecer a diversidade e a competitividade no sistema financeiro amplia o acesso ao crédito de forma responsável. Assim, o setor pode garantir a inclusão financeira, protegendo clientes e o mercado em um momento de maior complexidade econômica.
Para o consumidor, entender essas mudanças é fundamental para administrar melhor suas finanças e evitar o aumento do endividamento. O equilíbrio entre oferta consciente de crédito e controle da inadimplência será decisivo para o futuro dos bancos digitais e fintechs no Brasil.
